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Star Wars e como os maus sempre chegam ao poder.

Senador Palpatine/Darth Sidious
Senador Palpatine/Darth Sidious

O Disney+ finalmente chegou no Brasil e seu carro chefe, a série The Mandalorian, parte do universo Star Wars, fez com que uma legião de fãs colocasse toda a saga novamente em evidência — convenhamos que não poderia diferir, com o baby Yoda esbanjando fofura na tela, não é? “Pode ser” que alguns membros do Expresso Libertário — este que vos fala incluso — tenham grande carinho por tudo que envolve a Força e, sendo libertários, não poderiam deixar de notar as várias mensagens que a saga carrega. Especialmente aquelas sobre o que as pessoas mal-intencionadas, dominadas pelo lado sombrio, podem fazer para chegar ao poder e como trilham este caminho. O caos, a guerra e a tragédia são ferramentas daqueles que buscam o poder.

No Episódio I: A Ameaça Fantasma, de 1999, vemos isso. De um lado Darth Sidious conspira com várias federações, como as de comércio e tecnológicas, lançando-os em uma empreitada contra Naboo, seu planeta natal. Ele dá garantias a estes grupos de que exerceria seu poder e influência sobre o Senado Galáctico.

Legitimando as ações, em especial da federação de comércio, enquanto isso, o senador Palpatine (alter-ego usado pelo Lorde Sith para se esconder a vistas de todos) induz a Rainha de Naboo e todo o senado a lançarem-no ao cargo de chanceler.

A mensagem é clara o tempo todo: burocratas e corruptos tomam conta da república e impedem o senado de agir. Só uma liderança forte pode direcionar o governo para os esforços que construirão a estabilidade — e é claro que esse líder é, obviamente, ele. Qualquer semelhança com este discurso de Hitler não é coincidência.

Na trama, o povo de Naboo permanece livre e os planos de Darth Sidious são parcialmente frustrados graças às ações heroicas dos Jedis e à união de Gungans e Humanos de Naboo, que encerram a ocupação. Restaurada a paz, a janela de oportunidade se apresenta: tendo tirado o máximo de proveito, nosso vilão agora comanda o Senado, de forma legitima e democrática.

Aproveitando a Crise de Naboo, Darth Sidious influencia vários planetas a deixar a república, instalando a Crise Separatista. Um perigo crescente, 10 anos após os eventos do primeiro filme, faz com que seu novo aprendiz/fantoche (um ex-Jedi conhecido como Conde Dooku ou Darth Tyranus e líder da Confederação de Sistemas Independentes) militarize, cada vez mais, os sistemas membros da confederação, criando uma ameaça maior do que as forças Jedis poderiam lidar.

Mais uma vez o caos se instala. Mais uma vez a democracia, com todas as suas vozes e todas as suas burocracias, é incapaz de oferecer uma solução para a crise. Mais uma vez um líder forte, pensando no “bem de todos”, deve agir para assegurar o retorno a estabilidade, construindo um exército de clones gigantesco, para proteger a república e debelar a rebelião.

Como sempre, Darth Sidious usa de influência para induzir o senado à paralisia. O “tolo maravilha” Jar Jar Binks — que eu nunca vou entender o porquê Padmé deixou como representante de Naboo — sente a necessidade de pedir ao parlamento que dê poderes especiais (emergências) ao chanceler. E “é claro” que ele irá usá-los apenas durante a crise e renunciá-los assim que ela se encerrar. O discurso de Palpatine em resposta à investidura de tais poderes “temporários” é clássica de qualquer “democrata”. Vejamos um trecho:

“É sim, com grande relutância que eu aceito esse chamado. Eu amo a democracia. Eu amo a república. Os poderes que me concederam deixarão de ser usados quando a crise for contornada…”

Mais uma vez, a comparação com vários outros ditadores da realidade é inescapável. Em especial com Hitler, que também aproveitou do caos já existente (e muito da desordem por ele próprio criada) para obter o Ato de Permissão: lei que lhe dava poderes de criar e revogar outras leis, sem nem mesmo apresentá-las ao parlamento, mesmo que fossem inconstitucionais. Sempre algo necessário e urgente, sempre para corrigir a morosidade e a corrupção da Democracia, sempre temporário e por um bem maior.

Então a batalha começa: os guardiões do povo, os Jedis, cegos pela guerra, não veem a ameaça maior e, com as necessidades da crise, o Estado se agiganta. Tudo é voltado para o esforço final. No tempo que lhe é oportuno, o Lorde Sith conduz o combate para o seu derradeiro fim, momento onde todas as suas forças estão posicionadas para o próximo passo. Finalmente os Jedis percebem o risco e agem para derrubar o vilão do poder, mas já é tarde demais. Darth Sidious vence o confronto com a, sempre oportuna, ajuda de Anakin Skywalker.

O ataque Jedi era o que faltava. Agora, com eles derrotados e mais uma ameaça criada, na medida certa, para lhe dar poder e influência, o chanceler vai ao Senado expor sua versão dos fatos. Você pode ler o discurso na íntegra aqui, mas destaco este trecho:

“A fim de garantir a segurança e estabilidade da nossa sociedade, esta República será reorganizada como o primeiro Império Galáctico, por uma sociedade segura e à salvo, o qual eu lhes asseguro irá durar por dez mil anos”.

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Vejam como sempre há um padrão: a segurança do povo, seus valores e cultura estão sob ameaça e só um salvador forte pode impedir o desastre. Mas observem também como a Democracia (hoje considerada praticamente uma “vaca sagrada” que não deve ser questionada, muito menos atacada) é sempre usada para que os piores cheguem ao poder, justamente por estarem dispostos a causar ou potencializar o caos para atingir seus fins.

Notem principalmente que ninguém chega ao controle de vastos impérios sozinho. Sempre contam com apoio, obediência ou mesmo indiferença de inúmeras pessoas que não veem, ou ao menos fingem não ver, o mau com o qual colaboram.

Agora olhem à nossa volta: vejam como são tantas as características que permitiram o mau prosperar, seja na fictícia Star Wars ou na, infelizmente muito real, Alemanha Nazista, estão presentes: um problema enorme, um inimigo feroz e implacável; vários políticos que só querem o nosso bem tomando para si o máximo de poder, passando leis que dão legitimidade às suas ações; e como inúmeras pessoas colaboram ativamente, mesmo sem perceber, para a extinção da nossa liberdade, mesmo com todos os sinais que no passado alertaram para o avanço do mau se repetirem.