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Os avanços na segurança da fórmula 1 e o respeito a propriedade

Se foram décadas, acidentes e mortes envolvidas para até priorizar a segurança dos profissionais deste esporte.

Já são sete décadas, a fórmula 1 (F1) é um dos esportes mais tradicionais e é a modalidade máxima do esporte a motor no qual é regulada pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA).

A F1 continua atraindo todas as idades, transmite um romantismo, exala adrenalina e poder. Ao decorrer de 70 anos, a modalidade teve muitas mudanças, podemos fazer um comparativo dos carros nos primórdios da F1 com os atuais.

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McLaren em 1966. Fonte: Revista Autoesporte

Muita diferença, não?

Inúmeras histórias dentro das pistas e fora. Encontramos diversos debates e um que gerou muita polêmica foi em relação à segurança do esporte. Alguns acreditava que a fórmula 1 deveria ter riscos se não o esporte perderia seu charme. Enquanto outros acreditava ser essencial priorizar a integridades dos competidores.

Um dos pioneiros em levantar a bandeira para a segurança foi o tricampeão Jackie Stewart que anos 60 já brigava nos bastidores da fórmula 1 pedindo mais segurança. Stewart que idealizou o capacete que cobre toda a cabeça do piloto e o macacão antichamas. Ele recebeu até um apelido “homem vacilante”, pois acreditavam que ele era medroso.

Outro tricampeão que levantou a bandeira de segurança foi Niki Lauda. Niki tinha sido campeão do campeonato em 1975 e utilizava sua influência para fazer melhorias no esporte.

Em 1976, Lauda não queria correr a corrida de Nürburgring, devido a péssima condição da pista. Em uma votação entre os pilotos, a maioria foi favorável em ter a corrida. Resultado, Lauda bateu forte e carro pegou fogo.

Niki Lauda teve o rosto queimado, respirou muita fumaça e teve o pulmão comprometido. Porém, quando ninguém esperava que ele iria sobreviver, ele voltou a correr depois de 42 dias e ficou com o vice campeonato, perdendo para o inglês James Hunt.

O caso retratado demonstra uma violação do direito individual, a maioria supera a minoria, logo deve ser aceito a opinião pelo “Bem da maioria”. Um ato no qual a liberdade é ceifada e resulta em um sacrifício (Niki). É evidente que as regulações da FIA infligiam a propriedade alheia.

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Niki Lauda em uma coletiva de imprensa logo após retornar a F1

rigoso, caso queira atrair fãs, patrocinadores, pilotos para correr na F1, uma mudança deveria ocorrer.

As mudanças ocorreram do dia para noite? Claro que não.

A virada de página em definitivo foi no final de semana, 1 de Maio de 1994 no grande prêmio de San Marino em Ímola, Itália. Um dos finais de semana mais triste da fórmula 1, ou melhor, do esporte.

Naquele final de semana, nos treinos livres de sexta feira, Rubens Barrichello, ainda novato na fórmula 1 sofreu um grave acidente, porém, saiu ileso. No treino classificatório de sábado, Roland Ratzenberger bateu forte, não resistiu aos ferimentos e morreu.

Através desses acontecimentos era notório que não deveria ter corrida, os pilotos estavam apreensivos. Vale ressaltar, que os pilotos não estavam satisfeitos com a mudança do regulamento e percebiam que os carros não estavam seguros. Com estes dois acidentes, era evidente do perigo que estavam passando, um deles levantava a bandeira da corrida de domingo ser cancelada, era Ayrton Senna.

Senna ficou chocado com o acidente de Barrichello e da morte de Roland. Entretanto, ele não conseguiu obter força para cancelar a corrida. Infelizmente, 1 de maio de 1994, domingo, Ayrton Senna também sofreu acidente fatal batendo forte no murro na curva Tamburello.

Uma curiosidade, no momento do acidente Senna era o primeiro e Michael Schumacher estava em segundo. Este ganhou a corrida de Ímola de 1994 e o campeonato. Alguns dizem que se não fosse aquele final de semana trágico Schumacher não teria 7 títulos, pois o Senna seria a “pedra no sapato dele”.

Enfim, não sabemos, fica a teoria e as análises. O que é fato, após esse final de semana ocorreu uma significativa mudança na segurança da F1.

Aconselho a ver um vídeo de uma corrida dos anos 80 ou 90 e veja uma atual. A mudança na segurança é visível. As décadas anteriores, se um carro quebrava ou batia. Os fiscais retiravam o carro da pista, mas deixava na beira da pista. Ou seja, a chance de ocorrer outro acidente era alta. A invasão do público ao final da corrida com risco de atropelamento, é evidente, no GP do Brasil de 1993.

Analisando todos esses pontos, os organizadores, pilotos e chefes de equipes começaram a frisar a segurança. As mudanças foram nas suspensões que ficaram mais resistentes, o cockpit ficou um pouco mais comprido para evitar que o piloto batesse a cabeça no painel. O uso do Hans, protetor de pescoço e cabeça, colaborou em muito para evitar o movimento chicote no pescoço ocasionando lesões. Vale ressaltar, que os carros começaram a ser fabricados com fibra de carbono, um material extremamente resistente que absorve os impactos. Assim, o cockpit não era afetado em caso de uma batida, logo, o piloto também.

Outro ponto a trazer é a questão dos revestimentos em paredes, muretas e guarda rail. Os revestimentos são feitos de materiais para absorver o máximo o impacto, protegendo piloto, público que assiste à corrida e os funcionários.

É bom ressaltar do uso das bandeiras para organizar e informar os pilotos. Cada cor representam um determinado fator. Por exemplo, a bandeira amarela informa sobre perigo na pista, utilizada em caso de acidente. Enquanto a bandeira vermelha é usada para interromper a corrida.

Lembrando que toda vez que tem algum perigo aos pilotos ocorre entrada do Safety Car. O Safety car existe desde 1973, mas só em 1993 que se tornou obrigatório a sua presença em casos de riscos a integridades dos pilotos.

Claro, não podemos esquecer dos capacetes que também evoluíram. Um exemplo, veja o acidente do Felipe Massa, que foi atingido por uma mola que desprendeu do carro de Barrichello. Atualmente, os carros estão utilizando o Halo, um protetor que fica acima da cabeça do piloto para evitar que algum pneu ou um fragmento grande o atinja.

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Felipe Massa sendo resgatado no GP da Hungria de 2009. Fonte: Globo esporte

A fórmula 1 é um esporte veloz, perigoso e a virada de página em relação à segurança foi brusca. Um esporte que evoluiu, infelizmente, através de tragédias, mas que conseguiu se corrigir e ainda atrai milhares de pessoas.

Você pode nunca ter assistido F1 ou nem gostar do esporte, mas, saiba que muito da tecnologia desenvolvida para a segurança dos pilotos foi transferida para os carros do cotidiano.

Um esporte caro, que necessita de patrocínios para se manter, se ficar transmitindo insegurança, não atrai os olhares de investidores. Eu não iria aplicar meu dinheiro em um empreendimento que coloca vidas em riscos, e você?

Percebe-se que os dirigentes tiveram os incentivos, as críticas, o cuidado, a cautela de se renovar e se adaptar. Através desses fatores, alteraram as regulações em busca do respeito da propriedade dos competidores. Atualmente, os debates continuam, o foco é em parar de utilizar combustíveis fósseis, e claro, mais segurança.

Deixo uma indagação libertária

Imaginem se a F1 tivessem nas mãos de burocratas estatais que não tem nenhum incentivo…

Recomendação cultural: Assistir o filme Rush: No Limite da emoção que trata sobre o acidente de Niki Lauda, a rivalidade dele com James Hunt e a disputa do campeonato de 1976.