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Liberais de Governo

Lew Rockwell escreveu um ótimo artigo hoje, Regime Libertarians. O timing é apropriado porque me ajudou a cristalizar um de meus próprios pensamentos a respeito — bem num momento em que eu estava discutindo com outro libertário a respeito de sua crítica aos liberais; Eu estava apontado para o fato de que os liberais não são o problema; o problema são os liberais mainstream que apoiam o estado. A coluna do Lew faz uma bela distinção ao apontar:

Liberais que idolatram o governo
Photo by Michael on Unsplash

Essas pressões sociais e de carreiras costumam explicar por que os liberais se vendem. Mas esta não é toda a razão. Há também algumas confusões intelectuais que tem a ver com a visão de cada sobre o próprio governo. Alguns, acreditam que a liberdade é uma coisa boa, mas que existe somente com a condição prévia de boas instituições estatais que criem as condições básicas de liberdade. Esta é uma visão de que a liberdade não subsiste por si só e que a sociedade e a civilização não pode surgir de si mesma. Dessa forma, acreditam que a liberdade precisa do governo do estado para ter polícias, juízes, legisladores e presidentes que criam as condições para que a liberdade seja possível em primeiro lugar. […]

Para sermos claros, não estamos falando de uma mera crença em um governo limitado, ou, como as vezes é chamado, do “minarquismo”. Existe uma diferença entre acreditar na necessidade do governo estatal para preservar e proteger a liberdade e acreditar na ideia de que o estado é a condição primária da sociedade, responsável por dar nascimento à liberdade. Por um lado, algum governo é inevitável; por outro, o poder estatal é um benfeitor da liberdade, é a força para a qual a liberdade deve sua própria concepção. Existe uma diferença entre ver o governo estatal como um mal necessário e ver a liberdade como filha do poder estatal.

Lew chama estes liberais de “Liberais de Governo”, em contraste com os Liberais de Laissez-Faire:

Um bom nome para esta escola de pensamento é “Liberalismo de Governo”. Um modificador que identifica os meios que escolhem para defender do que constitui a liberdade. Isto identifica o público alvo de seus pedidos e súplicas. Isto identifica a instituição que eles acreditam ser a condição primeira para o avanço da civilização. Isto explica com precisão onde reside sua lealdade final. Assim, todos os planos em prol da liberdade se resumem a redirecionar as atenções do poder, mas não desarraigá-lo totalmente.

Esta é uma típica excelente coluna de Lew. Eu mesmo percebi essa tendência de liberais não apenas acharem que o governo do estado é um mal necessário ou inevitável, ou até ser tolerável para resolver alguns problemas intratáveis; mas acreditarem inclusive que é uma coisa boa. Esses liberais veem o estado tal como se vê um departamento de rodovias. Asseguram que o governo precisa construir a “infraestrutura” de rodovias, como pré-requisito de se construir uma sociedade industrial. Da mesma forma, os Liberais de Governo parecem incapazes de conceber que a liberdade funcione por conta própria; eles veem o estado como provedor da infraestrutura legal e política necessária sem a qual a civilização seria impossível.

Agora, eu não quero dizer, e acredito que tampouco Lew, que todo minarquista (não-anarquistas) mantém essa visão. Muitos minarquistas apenas toleram o estado, o vendo como uma instituição necessária, apesar de muito perigosa, para lidar com um mínimo de funções, como segurança e justiça. Entretanto, isto não significa que necessariamente vejam esta agência como a benfeitora da humanidade; não é algo pelo qual precisamos ser gratos por nos conceder a liberdade, ou ainda por nos dar as “precondições” para a produção e civilização. Ao invés disso, minarquistas podem, e costumam, ter uma desconfiança saudável do estado e apesar de acreditarem que este pode servir para alguma função, não o vêm como fonte da civilização. Eles o reconhecem como parasitas na sociedade, inerentemente perigoso senão corrupto, e portanto precisa ser observado de perto.

Em contraste, para os Liberais de Governo, como Lew explica, é como se o estado fosse realmente uma coisa boa que nos fornece a infraestrutura da civilização. Acredito que muitos Objetivistas tendem a manter esta visão, esquizofrenicamente condenando os “excessos” ultraliberais do nosso governo atual enquanto ainda mantém uma visão otimista de suas origens e possibilidades; se apenas ajustássemos a Constituição, ou tivéssemos as pessoas certas no poder, poderia ainda tudo dar certo. Etc.

Há muito tempo penso que o que está faltando em alguns liberais é que eles não odeiam o estado. E eis que Rothbard tem um artigo, Do you hate the state? Ótimo. Leia-o também. Tudo isso ajuda explicar a reação histérica que recebi da minha crítica aos críticos libertários do caso Kelo. Eles querem que a Suprema Corte benevolentemente exerça seus poderes —apesar de nunca os termos concedido —para alcançar e endireitar os estados. Simplesmente não ocorre a eles que isso pode ser extremamente perigoso; eles não odeiam o estado central.

O Liberal de Governo se sente compelido a não criticar a validade básica sequer do estado monstruoso de hoje em dia, pois não querem ser marginalizados. Eles querem ter influência sobre possíveis movimentos incrementais em direção à liberdade. Isso talvez seja um pouco compreensível, mas eles não apenas têm medo de admitir que o rei está nu — eles também atacam os libertários que têm coragem e clareza para dizer em voz alta que o Rei está nu.

A primeira coisa que as pessoas fazem, quando se vendem em qualquer sentido, é odiar aqueles que não fizeram o mesmo. Eles se tornam, de fato, agentes do estado, fazendo o trabalho sujo por ele — demonizando seus reais inimigos.


Tradutor: Danilo Ribeiro

Autor original: Stephan Kinsella – 07/02/2005


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