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Inflação e deflação sob a perspectiva austríaca – Parte 2

O preço do dinheiro e a lei de oferta e demanda

O preço dos bens e serviços representa a quantidade de dinheiro a ser paga quando estes são adquiridos por alguém. De maneira análoga, o preço do dinheiro representa o exato oposto, ou seja: a quantidade de bens e serviços exigidos para que se possa tomar posse de certa quantia monetária. 

Como é usual ao se tratar de conceitos econômicos, aqui os exemplos vêm ao auxílio da compreensão. Assim, uma troca hipotética em que um agente A adquire um sorvete por dois reais de um sorveteiro B demonstraria que: (1) A valoriza mais o sorvete que recebe que os dois reais que paga, ao passo que B, pelo contrário, enxerga mais valor nos dois reais que lhe são entregues que no sorvete que está fornecendo; (2) o preço de uma unidade de sorvete, neste caso, é de dois reais, e (3) o preço dos dois reais, para o sorveteiro, é a unidade de sorvete que ele oferta ao agente A – o que, implicitamente, demonstra que uma unidade de sorvete é a quantidade de bens econômicos que B está disposto a pagar para adquirir os dois reais; isto é o mesmo que dizer que, caso o preço do sorvete fosse um real, seriam duas unidades de sorvete que B ofereceria para obter os dois reais de A.

O preço do dinheiro, portanto, é o poder de compra monetário (PCM), o qual corresponde à quantidade de bens e serviços que uma determinada quantia de dinheiro é capaz de comprar. Disto se conclui que o aumento deste preço é o mesmo que elevação do poder de compra da moeda e, de maneira equivalente, que a sua queda é sinônimo de redução do poder de compra monetário.  

A lei de oferta e demanda é um princípio econômico basilar segundo o qual a oferta de um determinado bem no mercado tende a se igualar à sua demanda pelos consumidores. Em outras palavras, caso os consumidores passem a buscar um determinado produto ou serviço, a tendência é que surjam investidores e empreendedores dispostos a alocar seu capital a fim de produzi-lo e ofertá-lo no mercado para, assim, maximizarem os próprios lucros.

A oferta refere-se tanto à quantidade disponível no mercado de um certo bem ou serviço como ao preço pelo qual o vendedor está disposto a ofertá-lo; já a demanda, por sua vez, guarda relação com o quanto os consumidores valorizam o item em questão e com a sua disposição a pagar por ele determinado preço. Os dois fatores que influenciam tal disposição são o poder aquisitivo dos consumidores e as suas preferências pessoais subjetivas. 

É precisamente a interação entre oferta e demanda o que determina dinamicamente o preço dos bens e serviços. Se a oferta de um bem for alta mas, por outro lado, a sua demanda for reduzida (isto é, se este bem for ofertado a um preço pelo qual muitos consumidores não o valorizarão tanto ao ponto de comprá-lo), a tendência é que o ofertante reduza o valor cobrado a fim de evitar o prejuízo decorrente de acabar com um excedente de produtos não comprados no estoque, ajustando-o a um valor pelo qual os consumidores estejam dispostos a obtê-los. 

Caso, no entanto, haja uma baixa oferta de um bem correspondida por uma grande demanda (ou, equivalentemente, uma quantidade ofertada insuficiente para suprir a procura dele pelos consumidores), a tendência é que o ofertante aumente o preço do item em questão, procurando com isto maximizar seu lucro e selecionar os consumidores que mais desejem adquiri-lo. 

Em outras palavras, a alta oferta de um bem acompanhada de uma baixa demanda dele pelos consumidores tem como efeito mercadológico a queda do seu preço, e o cenário inverso leva a um aumento deste preço.

A explicação acima do papel da lei de oferta e demanda para a determinação constante dos preços dos bens e serviços é suficiente para embasar uma justificativa dos efeitos econômicos da inflação e da deflação.

Inflação e deflação

Como foi explicado na primeira parte deste artigo, o dinheiro pertence à categoria dos bens de troca. Além disso, e à semelhança dos demais bens econômicos, ele também possui uma oferta e uma demanda próprias. 

Conceitualmente, a oferta monetária é a quantidade de dinheiro em circulação no mercado. 

A respeito da demanda por dinheiro, em um primeiro momento é importante estabelecer que ela é dividida em: (a) demanda para entesouramento, a qual consiste no volume de dinheiro que os agentes demandam para encaixe e no quanto tais agentes estão dispostos a oferecer para obter mais dinheiro em troca; e (b) demanda expressa pela quantidade de bens e serviços disponíveis à venda no mercado. A justificativa para (b) também constituir um tipo de demanda por dinheiro reside no fato de que haver produtos e serviços à venda no mercado presume que os fornecedores deles (empreendedores, comerciantes, investidores, trabalhadores etc) demandam, valorizam e necessitam de dinheiro em troca dos bens que produzem; caso contrário, tais fornecedores não os ofertariam em troca de dinheiro.

A conclusão lógica é que os dois tipos de demanda por dinheiro, os quais são (a) a demanda para entesouramento e (b) a demanda expressa pela quantidade de bens e serviços disponíveis no mercado, correspondem exatamente ao mesmo fenômeno. Caso o agente em questão seja um trabalhador e necessite de mais dinheiro para encaixe (ou seja, uma reserva líquida para manter em caixa), ele estará disposto a ofertar mais de sua mão-de-obra por dinheiro; caso seja um empreendedor, este agente estará disposto a investir mais em insumos que aumentem sua produtividade e o tornem capaz de ofertar mais bens ou serviços para, assim, auferir uma maior receita. Desta forma, a demanda para entesouramento influencia diretamente a demanda traduzida pela quantidade de bens e serviços à venda no comércio.

A definição de inflação e deflação proposta pelos economistas austríacos, apresentada no início do primeiro artigo, estabelece que elas se referem, respectivamente, a uma alta ou uma baixa na oferta monetária. 

Ora, ao se afirmar que x é ‘alto’ ou ‘baixo’, está se dizendo que x o é em relação a algo com a mesma natureza de x, e com o qual ele possa ser comparado. Portanto, está implícito nestes conceitos que inflação é uma alta oferta de dinheiro dada uma baixa demanda por ele e, de maneira inversa, que a deflação é uma baixa oferta de dinheiro quando comparada com uma alta demanda por este bem.

Neste ponto já dispomos das ferramentas conceituais necessárias à justificativa dos efeitos da inflação e da deflação apresentados na primeira parte deste artigo.

Assim, retomando as definições, a inflação pode se referir, primeiro, a um aumento da oferta monetária. Esta alta na oferta de dinheiro em conjunto com uma demanda inalterada tende a gerar, pela lei de oferta e demanda, uma queda do seu preço. Este preço, como já demonstrado, é o próprio poder de compra da moeda.

Do mesmo modo, uma diminuição da demanda por moeda em um contexto em que a oferta de dinheiro mantém-se constante também configura inflação, simplesmente porque esta redução de demanda significa um decréscimo do número de bens ofertados em troca de dinheiro. Novamente, tem-se uma situação em que ocorre queda do preço monetário (perceptível pelo aumento geral dos preços de produtos e serviços). 

No mundo real, a possibilidade de a inflação ocorrer em decorrência do segundo cenário (no qual a oferta monetária não se altera) é pouco plausível, visto que seria resultado de quedas da produção ou sanções econômicas, ambas incomuns no mercado. O tipo de inflação mais comum e factível é o primeiro, regularmente provocado pelo governo mediante o Banco Central, ao emitir mais papel-moeda como parte das chamadas políticas monetárias.

O maior prejudicado por este processo, evidentemente, é o consumidor, que se vê obrigado a destinar uma parcela cada vez maior da própria renda (agora com seu poder de compra dilapidado) à compra de itens que antes conseguia obter por valores necessariamente menores.

Passando à análise da deflação, e como já enfatizado, ela é caracterizada pelos fenômenos opostos àqueles que constituem o processo inflacionário, a saber: a diminuição da oferta monetária ou o aumento da demanda por dinheiro.  

A primeira modalidade de deflação tem como efeito a diminuição geral dos preços porque, havendo uma contração da base monetária em um cenário econômico em que a demanda por dinheiro permanece a mesma, a lei de oferta e demanda garante uma tendência a que o preço do bem dinheiro se eleve. O preço do dinheiro, vale reafirmar, é o seu poder de compra.   

Já o segundo tipo, por seu turno, promove a elevação do preço do dinheiro – ou, equivalentemente, a queda generalizada dos preços dos demais bens – em decorrência de uma valorização adicional de cada unidade monetária. Tal valorização advém do fato de que o aumento da demanda por dinheiro em uma economia ocorre principalmente em virtude de ganhos de produtividade. Estes ganhos significarão mais produtos e serviços sendo ofertados por empreendedores em troca de dinheiro. Novamente, pela lei de oferta e demanda, a tendência aqui é a valorização da mercadoria pouco ofertada e muito demandada. Neste caso, da moeda corrente.

Há um caso recente que exemplifica o que foi exposto acima acerca da inflação. No decurso do processo de invasão da Ucrânia pela Rússia, que depois veio a se tornar uma guerra entre os dois países, foi observada uma queda brutal do poder de compra da moeda russa (rublo) em virtude das sanções econômicas aprovadas por União Europeia (UE), Reino Unido e países como EUA e Suíça. Tais sanções estabeleceram restrições ao comércio internacional que envolvesse o país, impedindo a Rússia de transacionar com outras nações. 

A consequência mais notável dessas restrições foi a depreciação cambial do rublo, o que se traduziu em substancial perda de poder de compra pela moeda russa. 

Como explicar, no entanto, a relação entre as sanções econômicas sofridas pela Rússia e a consequência inflacionária de perda do poder de compra da sua moeda? 

Ora, dado que a oferta de dinheiro no país manteve-se relativamente inalterada e os bloqueios econômicos dos países estrangeiros impossibilitaram parte significativa do comércio internacional da Rússia, passou a haver menos agentes internacionais ofertando bens e serviços a fim de comprar o dinheiro russo. Este cenário é um exemplo típico de queda brusca da demanda por uma moeda. O efeito disto foi uma queda vertiginosa do preço do rublo, representada por sua desvalorização cambial recorde (de 30%) em relação ao dólar no mês de Fevereiro.

Respondidos agora os legítimos questionamentos acerca da inevitável relação entre inflação/deflação e seus efeitos, à luz da Escola Austríaca de Economia, resta ainda uma dúvida  acerca dos assuntos aqui tratados, mencionada ainda na primeira parte deste artigo: por que o dinheiro é um bem de troca, e não um de consumo ou produção?

Para respondermos a esta questão, cumpre apresentar o significado do conceito econômico de riqueza. Em linhas gerais, riqueza nada mais é que a quantidade total de bens e serviços à disposição dos consumidores. 

Afirmar, por exemplo, que há mais alimentos, carros, casas, computadores, ingressos de cinema e cortes de cabelo à venda no mercado equivale a dizer que há um número maior de bens e serviços capazes de atender às necessidades dos consumidores, ou, em outras palavras, que há mais riqueza na sociedade como um todo. Por esta razão, é razoável afirmar que um aumento da oferta de bens de consumo implica criação de mais riqueza no mercado, justamente por haver mais produtos que contribuirão para satisfazer os desejos dos agentes e melhorar o bem-estar econômico geral.

De maneira semelhante, um crescimento da oferta dos bens de produção (capital) significa mais insumos capazes de elevar a produtividade econômica geral. Uma produtividade maior equivale a mais bens de consumo ou produção produzidos em menos tempo – e portanto a mais necessidades sociais atendidas, em consequência deste incremento na geração de riquezas.

Entretanto, uma maior abundância de bens de troca (dinheiro) não implica o surgimento de bens capazes de atender às demandas de consumo dos agentes e tampouco de bens que poderão aumentar a produtividade econômica da sociedade. Ou seja, um aumento da oferta de dinheiro não significa aumento da riqueza disponível em uma economia, simplesmente porque não há nenhuma relação direta entre o número de bens de troca e o de bens de consumo ou produção.

Disto se conclui que um indicador econômico razoável de que uma sociedade é próspera é o crescimento da oferta de bens disponíveis nela e a queda contínua dos preço destes. Com relação ao dinheiro, entretanto, dá-se o exato oposto: a riqueza social corresponde ao não-aumento de sua oferta acompanhada de uma elevação regular de seu preço. 

A razão para tanto é que o dinheiro – ou moeda – por si só não representa riqueza, e sim potencial de enriquecimento; ele simboliza quantos bens ou serviços os consumidores podem adquirir estando em posse de determinada quantia monetária. Esta é a diferença fundamental que não permite classificá-lo como bem de consumo ou produção.

Portanto, a inflação do dinheiro representa o potencial de enriquecimento dos consumidores (poder de compra) diminuído, visto que seu efeito principal é fazer com que os consumidores possam comprar menos bens e serviços com uma quantia de dinheiro que se manteve inalterada. Isto faz com que precisem dispor de mais deste bem para comprar os mesmos itens que antes adquiriam. E como era de se esperar, o fenômeno oposto, a deflação, tem o efeito inverso: ela representa um aumento do potencial de enriquecimento dos consumidores, os quais poderão receber mais bens e serviços em troca de uma quantidade fixa de moeda ou, do mesmo modo, obter os mesmos bens por uma menor quantia de dinheiro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

O Que O Governo Fez Com Nosso Dinheiro? (ROTHBARD, 1963)

The Theory of Money and Credit (MISES, 1912)

Man, Economy And State (ROTHBARD, 1962)

A Origem Do Dinheiro (MENGER, 1892)

Human Action (MISES, 1949)