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Inflação e deflação sob a perspectiva austríaca – Parte 1

A inflação é popularmente definida como o aumento geral dos preços dos bens e serviços. Já a chamada deflação, termo técnico pouco familiar ao populacho, é entendida como o contrário dela. Assim, a impressão mais comum entre leigos e economistas convencionais é a de que, se a inflação é o aumento geral dos preços dos bens econômicos, então a deflação seria a queda geral dos preços destes mesmos bens. 

A Escola Austríaca de Economia, por seu turno, apresenta uma definição definitivamente diversa da significação atribuída pelo senso comum a esses fenômenos.

A definição austríaca afirma que inflação é o aumento na oferta monetária ou, alternativamente, a alta oferta monetária no mercado. Destarte, sob esta ótica, inflação é a expansão da quantidade de dinheiro em circulação no comércio; o aumento generalizável dos preços dos bens e serviços é apenas uma consequência econômica dela. Em outras palavras, há uma relação causal entre inflação e o aumento dos preços dos bens e serviços ofertados em uma economia. 

De maneira análoga, a deflação corresponde à diminuição na oferta monetária ou, ainda, à baixa oferta monetária disponível no mercado. Deste modo, a deflação é a causa do efeito econômico de queda geral dos preços das mercadorias.

Há duas consequências notáveis tanto da inflação como da deflação no mercado. A primeira provoca: (1a) o famigerado efeito de aumento dos preços dos bens econômicos; e (2a) desvalorização da moeda – o que, tecnicamente, presume queda do preço monetário, isto é, após uma medida inflacionária é tendente que o preço do dinheiro esteja menor e menos bens e serviços sejam pagos pela mesma quantia de moeda. Já a segunda, inversamente, causa: (1b) queda geral dos preços dos bens econômicos; e (2b) uma valorização adicional da moeda – ou aumento do preço monetário, em termos técnicos.

No entanto, é possível – e até saudável, na verdade – adotar algum ceticismo com relação às afirmações anteriores e questionar a validade tanto de (a) como de (b). Sendo assim, por quais motivos a ampliação da (ou uma alta) oferta de dinheiro causa aumento dos preços das mercadorias em conjunção com a desvalorização da moeda? E de maneira similar: quais as razões para a diminuição da (ou uma baixa) oferta de dinheiro provocar queda dos preços das mercadorias juntamente com a valorização monetária? 

Antes que seja apresentada uma justificativa econômica para os fatos mencionados acima, no entanto, é de vital importância que seja explicado o que é o dinheiro, no que consiste seu preço e como este é determinado pela lei de oferta e demanda, um princípio básico da economia cujo funcionamento é uma condição prévia para que os preços de bens e serviços sejam continuamente determináveis.

Os tipos de bens econômicos

Há basicamente três tipos de bens na economia: (1) os bens de ordem superior ou bens de produção (capital), (2) os bens de ordem inferior ou bens de consumo e (3) os bens de troca, que serão objeto de especial interesse neste artigo. Bens de produção e bens de consumo são ambos bens econômicos utilizados pelos agentes para atender suas necessidades mais urgentes; o que os distingue, contudo, é que os bens de produção satisfazem tais necessidades indiretamente, ao passo que os bens de consumo as satisfazem de maneira direta.

Imaginemos, por exemplo, que um agente chamado Crusoé use um pão para se alimentar. Crusoé, neste caso, usa o pão como um bem de consumo para satisfazer diretamente seu desejo de nutrir-se de um pão. Porém, é possível que este mesmo pão, em vez de ser usado como um bem de consumo por Crusoé, seja usado como um bem de produção. Assim, suponhamos agora que Crusoé deseje um hambúrguer. Neste cenário, Crusoé fará uso de um pão, uma faca, alface, tomate, queijo, a carne de hambúrguer frita e sua própria energia física para combiná-los a fim de produzir um hambúrguer. Neste exemplo ilustrativo, o pão, em conjunto com os demais bens, é empregado como um bem de produção para fabricar um hambúrguer e torná-lo disponível para ser consumido por Crusoé. Aqui, o pão é usado como um bem de produção que satisfaz indiretamente sua vontade de alimentar-se de um hambúrguer.

Em resumo, bens de capital são aqueles usados na produção cumulativa de outros bens de produção ou na criação de bens de consumo na cadeia produtiva. Exemplos deles são as máquinas de costura, vergalhões de ferro e redes de pesca, usados no mercado para produzir bens e serviços que atendam às necessidades dos consumidores. Bens de consumo, por outro lado, são os bens finais da cadeia produtiva, em geral comprados pelos clientes para o consumo direto ou preparatório. 

(Neste ponto é válido apresentar a distinção entre as duas subcategorias de bens de consumo introduzidas no parágrafo anterior. Bens de consumo direto são aqueles que podem ser consumidos imediatamente, já os bens de consumo preparatório são os que requerem uma manipulação preliminar antes de serem consumidos. No contexto de alimentos, por exemplo, salgadinhos industrializados e biscoitos recheados exemplificam bens de consumo direto, enquanto produtos como arroz, feijão e ovos pertencem ao grupo dos de consumo preparatório.)

São dois os atributos que um bem precisa possuir para que seja classificado como econômico. Um deles é a escassez; o outro é ser considerado pelos agentes um meio do qual podem fazer uso para alcançarem determinado fim. Em outras palavras, um bem econômico é caracterizado tanto do ponto de vista do observador desinteressado como do agente individual, que o valoriza com a expectativa de que tal bem lhe satisfaça alguma necessidade urgente. Determinar, no exemplo anterior, se o pão desempenha o papel de um bem de consumo ou de produção depende do modo como ele será usado para satisfazer as necessidades alimentares de Crusoé. Assim sendo, procede o seguinte raciocínio: se todo bem econômico é relativo ao observador e todo bem de consumo ou de produção é um bem econômico, logo todo bem de consumo ou de produção é relativo ao observador.     

O terceiro e último tipo de bem na economia são os bens de troca, os quais são usados para mediar as transações realizadas diariamente pelos agentes econômicos. É a essa categoria que o dinheiro pertence. Este fato, portanto, sugere a seguinte definição: dinheiro é o meio de troca comum do mercado usado para facilitar as trocas comerciais efetuadas na economia.

Tais trocas, por sua vez, subdividem-se em dois tipos: as diretas e as indiretas. Historicamente, estas surgiram em decorrência das dificuldades inerentes às transações envolvendo aquelas.

A troca direta ou troca por escambo é aquela em que os dois agentes envolvidos trocam diretamente entre si os bens que serão usados por eles mesmos para fins de consumo ou produção. Imaginemos, a título de exemplo, que um agente A possua um cachecol e necessite de uma jaqueta de frio para usá-la nas épocas gélidas de inverno, e coincidentemente haja um agente B que tenha uma jaqueta assim e queira um cachecol para combinar com as outras roupas de frio que possui. 

Neste caso, como B possui o bem de que A necessita e vice-versa, então ambos os agentes realizam uma troca direta em que A troca o cachecol pela jaqueta de frio por valorizar mais a jaqueta de frio que recebe do que o cachecol de que abre mão; do mesmo modo, B troca sua jaqueta de frio pelo cachecol por valorizar mais o cachecol que acaba de ganhar do que a jaqueta de frio que possuía. É por trocarem diretamente os bens que lhes são menos úteis pelos bens que lhes serão úteis para consumo ou para a produção de algum outro bem ou serviço que esta troca é caracterizada como escambo.

As trocas indiretas, por seu turno, são aquelas nas quais os agentes recebem ou ofertam um bem para poderem trocá-lo no futuro por outro que satisfaça suas demandas pessoais. É neste tipo de troca que o dinheiro é usado. Para que o entendamos melhor, suponhamos uma relação de troca entre três agentes A, B e C no mercado. 

Neste cenário, A dispõe de ovos e demanda queijo, B tem queijo e deseja manteiga, enquanto C possui manteiga e procura por ovos. De início, A oferta seus ovos a B em troca de seu queijo, ao que B responde que deseja manteiga, não ovos. A então se dirige a C, que concorda em lhe fornecer a manteiga, contanto que receba ovos como pagamento. Após obter a manteiga de C, A finalmente a troca pelo queijo de B, que era o bem originalmente demandado por A (seja para consumo ou produção). 

No exemplo exposto acima, A, ao trocar os ovos por manteiga, usa esta como um bem de troca para conseguir comprar o queijo de B. A manteiga, aqui, é um bem altamente valorizado por B, pelo qual ele está disposto a ofertar o queijo que possui. Em suma, a manteiga serviu como meio de troca para que A obtivesse mais facilmente o item de que necessitava.

O problema da troca direta, também chamado problema da dupla coincidência de desejos, pode ser identificado na primeira tentativa de A transacionar com B, em que A ofereceu ovos pelo queijo de B, mas o produto que B demandava não eram ovos, e sim manteiga. Por A ter ovos em vez de manteiga, ele precisou despender mais tempo e energia física para encontrar C, o vendedor de manteiga que demandava ovos.

Este empecilho, que surge em decorrência do sistema de trocas diretas, mostra como o dinheiro tem uma tendência natural a emergir no mercado como um modo de contornar essa inconveniência. Agora, quando os agentes que possuem um bem X e demandarem um bem Y mas, por sua vez, os detentores do bem Y não demandarem o bem X, bastará aos agentes possuidores do bem X ir trocá-lo pelo bem Z, universalmente demandado e aceito no comércio, a fim de o usarem como meio de troca para obterem mais facilmente o bem Y de que necessitam.

Resumidamente, os bens ou commodities a serem selecionados para servirem como dinheiro (ou seja, como bem de troca universal) nas transações de uma economia serão precisamente aqueles que são comercializados em maior volume e são mais valorizados pela população. Tais bens serão usados como meio de troca pelos agentes por serem aqueles que irão ajudá-los a negociar com o maior número possível de vendedores, dada a alta demanda pelos bens em questão. Deste modo, passarão a conseguir com muito mais facilidade os produtos e serviços que demandarem com urgência, de agora em diante.

Semelhante aos bens de consumo ou de produção, o dinheiro é relativo aos observadores, isto é, o fato de algo ser dinheiro ou não é ontologicamente subjetivo. Ou seja, o dinheiro é um ente cuja existência é dependente dos agentes individuais que usam e interpretam um bem econômico como um meio de troca.

Contudo, e de modo também similar ao que ocorre com os bens de consumo e produção, há determinadas mercadorias disponíveis na economia que são mais adequadas à finalidade de serem utilizadas como dinheiro do que outros bens econômicos. Suas características, portanto, as destacam das demais e as tornam as candidatas ideais para servirem como meios de troca, motivo pelo qual foram selecionadas naturalmente pelas comunidades humanas ao longo da história para cumprirem esta função. Este foi o caso do ouro e da prata, ambos metais que por muito tempo tiveram destaque devido ao seu valor monetário (em um artigo futuro serão abordados os critérios para que um bem seja usado como dinheiro).       

Após este preâmbulo abrangendo as características e a classificação dos chamados bens econômicos, pode surgir ainda a seguinte dúvida adicional (c): por que o dinheiro não pode ser classificado também como um bem de consumo ou de produção? Ou, em outros termos: o que diferencia o dinheiro dos bens usualmente destinados a ser consumidos diretamente ou a integrar o processo produtivo? Depois que os efeitos da inflação e da deflação forem economicamente justificados, teremos uma resposta cabal para a pergunta (c), a qual demonstrará por que o dinheiro não se encaixa em nenhuma das duas categorias.